segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Uma jogada falhada.

                                                         O JOGO
1º Capitulo: A primeira ordem

            Houve alturas em que pensava que tudo girava à minha volta. Essa altura passou, errei. Mas nem tudo mudou.
            Ainda penso que, já que o mundo não gira à minha volta, pelo menos que uma boa parte gire.

            Primeira regra: Não há nada que seja mais importante que a minha própria pessoa.

            Foi a partir desta primeira regra que fiz a minha primeira jogada. Atirei a minha Rainha para os peões.

 Jogo todas as peças a pensar na próxima jogada. Aquelas peças que não entram no tabuleiro, são meras criaturas que não influenciam o meu objectivo.

            Mas como disse, nada é mais importante que eu. É também por essa mesma razão que quero capturá-la.

2º Capitulo: O erro é apenas uma surpresa

            “Não fosse ela agora estragar tudo! O meu próprio jogo virado do avesso! Por um quê? Um mero Bispo?” pensou, tentando manter a calma.
            O rapaz encontrava-se deitado sobre a cama, com um pensamento amargo do futuro. Criava expectativas que talvez não pertencessem à realidade.

            “Vou capturá-lo e transformá-lo no meu melhor peão!”, e estas foram as suas últimas palavras naquela noite.

            Mais uma nódoa provocada pelo chocolate negro que deslizava pela colher de metal. Um erro atrás de outro e agora tinha de ir mudar de camisa.
            Levantou-se da cadeira de madeira e foi ao quarto à procura de algo limpo. Já era um pouco irritante o facto de se sujar com gotas de chocolate só porque ainda pensava de boca aberta.
“Que horas são?!” – apercebeu-se ele enquanto se penteava – “Não pode! Agora tenho de ir a correr! Que tristeza...”.
            Mais outro dia onde usava as suas cores favoritas: Azul, preto e branco. O tempo estava ameno e bem ele sabia que a temperatura ia aumentar lá para o final do dia.
            Entrou no autocarro. Iniciou a sua primeira jogada do dia. Uma simples mensagem e já um quadrado era ocupado por alguma peça.
            Na escola, o rapaz portava-se como um estudante normal. Tentava-se divertir, tinha alguns amigos, estudava e fazia o que os outros faziam. Mesmo que os outros não reparassem, ele estava sempre atento a cada pormenor das acções dos outros. Não que fosse por interesse ou algo, mas, era algo em que ele reparava e não percebia porquê.
            Era agora aula de matemática e o seu telemóvel ainda só tinha recebido umas poucas mensagens. Isso deixava-o frustrado.

-        Ora, hoje temos de dar matéria porque isto não pode ser assim! O tempo passa e depois não temos tempo para dar nada! Quem apanha, apanha, quem não apanha não apanha – E era assim que a professora iniciava as suas aulas quase tão monótonas como o padrão do tabuleiro de xadrez.
            “Dezoito alunos, mas... Falta um! Onde estará ela?” Pergunta típica do seu dia-a-dia. A tentar perceber onde estavam as pessoas desaparecidas que tipicamente vê e não vê.
            “Talvez tenha ido passear com uns crocodilos! Não, não, não! Ideia mais disparatada! Talvez tenha mesmo ido ter com o tal rapaz, ou, se calhar, morreu.” E esta era uma das suas respostas.
            De repente recebe uma mensagem.
            “Ora, se destas três pessoas só me responderam duas... Talvez seja ela.”
            Desiludido reparou que era uma peça fora de jogo.
            “O território é quase tão importante como a própria peça.”

3º Capítulo: Segunda Ordem

            Cada peça tinha a sua importância e até havia aquelas que eram denominadas por acções. Até certa altura pensava que a força mais destrutiva era a própria força. De um certo ponto de vista, ela continua a sê-lo Mas, o que é uma boa força sem uma boa jogada? De que vale o poder sem saber o que fazer com ele?
            Um Cavalo anda em forma de “L”. Com ele, podemos andar três quadrados, podemos evitar derrotas ou perdas de peças, podemos controlar sectores, podemos capturar peças, mas ainda mais importante, podemos saltar sobre as nossas peças.
           
            Segunda regra: Eu não sou o seu objectivo, uma outra peça é que o é.
           
            Iludir a presa é a melhor maneira de a capturar. Foi com esta regra que sacrifiquei um peão meu e devorei um bispo dele.
            Cada peça tem um trabalho no jogo. Um dos pontos em comum com todas as outras é que podem ser sacrificadas em troca de algo melhor.

4º Capítulo: Pressão controlada

            Se de um dia ele tirasse uma vantagem superior ao que ela tira numa hora sobre ele, ele já teria ganho o jogo.
            O tempo pairava sobre os seus olhos acastanhados. Estava sentado na relva com o queixo sobre a mão fechada. Era nessa mão que ele continha algo dela.

            “Não tenho nada teu. Nunca me ofereceste nada para além desses teus sentimentos elusivos.”

            Ele esmagava aquele vazio. Mas sabia que, por mais que tentasse, haveria sempre um ponto por preencher.
            Levantou-se da terra e sacudiu-a com as duas mãos. A terra era desprezível a seu ver. Só se misturava com a cor das suas calças e obrigava-o a remexer na cor.
            Enquanto andava rumo a casa, procurava sinais no ar de algo que lhe pudesse indicar o que fazer a seguir.            
            O seu telemóvel indicava no visor que recebera uma mensagem. Era ela.
            “ Não podias ter escolhido melhor altura de certeza.” Pensou.
            O seu pensamento negro limitou-se a escrever uma frase simples de modo a desprezá-la. Não é que tivesse algum tipo de rancor ou algo, mas pelo simples prazer de a querer dominar. Ele gostava de a por contra os limites do campo. Fazê-la recuar. Se ela recuasse, iria querer avançar. E era ai que ele atacava.

            No quarto, acendeu uma luz que só focava a mesa onde escrevia. E que coisas parvas escrevia ele.
            “Se um macaco de cor azul lançar-se para um balde de ketchup, irá ele ficar vermelho? Ou ficará roxo? E se não mudar de cor?
            Pergunto-me! Terei eu alguma influência sobre esse macaco? Se sim, será uma influência má? Será que ele sabe da minha existência? Se sim, quer ele saber de mim?

            Mas mais estranho ainda é o facto de eu saber que ninguém irá ler isto, ninguém irá interessar-se por tal barbaridade! De certeza que nem sabem o que é barbaridade! Sim, devem pensar que é uma acção de um bárbaro. Então e o que é um bárbaro?”

            Não fosse ele depois de escrever mandar uma mensagem. Mas também, não fossem as pessoas do outro lado não lhe responder. Era um facto triste, o facto que por mais que ele se esforçasse para receber atenção e alguma correspondência, nada conseguia. Foi por essa mesma razão, que decidiu esforçar-se para compreender as pessoas e entender o que elas procuravam.

            Voltou as costas ao dia deixando um pensamento triste sobre a mesa.
            “Olha quem encontrei senão o bispo. Cavalo para E5”.

5º Capítulo: Terceira ordem

            Todas as jogadas tinham erros. O problema é que ainda continuam a ter. Nada é perfeito nem nada irá sê-lo. Uma peça irá sempre virar as costas a uma outra peça e será nesse momento que será capturada ou a deixará fugir.

            O Bispo é uma peça bastante limitada, mas perigosa. A peça anda na diagonal do tabuleiro de forma a encurralar caminhos e estar sempre pronto a atacar quando menos se espera. É uma peça não muito difícil de capturar. É fácil de escapar com um bispo e fazer Xeque com ele, mas existe o problema de acertar num alvo. Pode andar todos os quadrados que quiser desde que seja na diagonal.  
           
            Terceira regra: Eu não posso cometer erros mais graves que uma outra peça.
           
            Cometer erros é natural. No entanto, nunca se deve cometer erros mais graves que outra peça. Foi a partir desta regra que sempre pensei mais além em cada jogada, de forma a provocar um erro no outro lado. Um erro de outro é uma vantagem. Um erro meu é uma desvantagem.

6º Capítulo: Descuidos pessoais

            O seu olhar triste corria as pessoas de alto a baixo. Por vezes parava uns instantes para descansar, mas como se a sua força fosse de mil reis, continuava a corrê-las e a entendê-las. Não é que fosse vontade sua entendê-las.

             – O sumário é “correcção do teste de avaliação”. Meninos, os vossos testes não foram maus mas também não foram algo de muito bom. – Não era uma notícia alegre mas também não era uma notícia triste.
            O rapaz analisava os erros do seu teste despreocupado. Sabia que tinha errado bastantes vezes e que isso era natural. Mas não eram erros graves, pelo menos assim o pareciam a seu ver.

Chegou à última folha do teste e reparou que havia uma anotação da professora que afirmava haver erros graves na composição.
            – Professora – disse ele aborrecido – A professora diz aqui que não devia ter feito um parágrafo mas suponho que posso fazê-lo.
            – Ora vê, tu não podes. Se falas de uma coisa aqui e a mesma aqui, tens de as juntar.
            Calou-se e mergulhou no silêncio. Estava triste de ter visto aquele erro grave que podia tão facilmente ser evitado.

            Já era de noite. As estrelas rodopiavam em volta dos planetas como os planetas em torno das estrelas. As moscas voavam livremente sobre o seu quarto pintado de azul, onde pela parede se encontravam expostas as suas paixões pela música, até onde estava a sua secretária. Os ruídos que ouvia vinham da sua mente. Não eram ruídos normais. Eram ruídos estranhos e desconfortantes de tal modo que o rapaz se deitou para cima da cama e decidiu afogar-se entre as mantas.

            Acordou sobressaltado. Olhou para o relógio que tinha na mesa e reparou que já era um pouco tarde para estar acordado. Mirou o telemóvel com um ar de suspeito e nada. A sua teoria estava certa!

            “Eu sabia. Ela raramente se move no tabuleiro. Agora quem mais joga são as peças dela, mas apenas poucas e sempre as mesmas. O mundo parou sobre ela. Eu próprio parei e ainda paro. Que poder fantástico que tens sobre mim! É mesmo verdade! Uma Rainha tem um poder dominante sobre todas as outras peças mas, mesmo assim eu sou o Rei! E não me vou deixar vencer por ti! Irei insistir nas jogadas e enfrentar toda a tua cavalaria, mesmo que isso me custe a vida.”

            Ele não entendia nem previa a próxima jogada. Pelo menos, por enquanto. Pensou e pensou. Não é que lhe faltasse imaginação para jogar, não era isso. Faltava-lhe coragem para avançar. Avançar era muito mais difícil que empatar. Se ele deixasse as coisas como estavam acabaria por morrer. Se avançasse e arriscasse a sua vida, talvez sobrevivesse no campo de batalha.
            “Mais um erro e menos uma peça.”

7º Capítulo: Quarta ordem
           
            Avaliar as peças é um dos princípios. Um princípio ainda maior é que tudo seja como eu quero. De que vale jogar sem que o nosso objectivo seja o que realmente queremos?

            Havia tempos em que acreditei que era só jogar uma peça para ter todas as outras. Mas esse tempo passou e arrependi-me.

            A Rainha é a peça mais poderosa do jogo sem contar comigo. Desloca-se nos sentidos que lhe bem apetece como se tudo fosse dela. Uma Rainha poderá ser criada quando um peão é promovido a tal, podendo então haver mais do que uma. Para ser promovido terá que matar todas as outras peças até chegar ao limite do campo contrário. Uma Rainha é quase tão ambiciosa como o Rei. A desvantagem da Rainha é que pode morrer em campo e o jogo pode não acabar.
                       
            Quarta regra: Eu não sou influenciado por desejos de outras peças.
           
            Que faria eu se fosse influenciado pelos desejos de outros? As jogadas que eu faria não seriam puramente minhas, mas sim, o desejo de um conjunto de peças. Nada se pode intrometer entre os meus objectivos, nem a peça Rainha.
           
8º Capítulo: Um sabor

            O seu orgulho fora derrubado. Ainda o sol despertava do seu sono eterno e já ele baralhava letras de forma a que Ela entendesse os seus sentimentos. Para sua surpresa, uma luz brilhante apareceu no ecrã da máquina de teclar! Custou-lhe o orgulho, mas ao menos conseguiu aquilo que mais queria. Uma peça a menos mas mais um passo para a vitória!

            O rapaz saiu da escola e deslocou-se a uma pastelaria. Os bolos fascinavam-no. O facto de um bolo ser uma mistura de ovos, farinha e mais alguns ingredientes e, estes formarem uma textura tão doce, fascinava-o. Abriu a carteira azul-escuro e mirou o dinheiro perdido no fundo dela. Contou-o com o olhar.
            “Cinquenta... Sessenta e ali está o setenta. Se pedir aquele bolo talvez eu consiga satisfazer-me mais. No entanto, se pedir aquele talvez por mais dez eu me satisfaça ainda mais. Mas não. Vou optar pelo o mais barato que para além do facto de poupar dinheiro, não tenho uma necessidade assim tão grande de bolos.”

            A sua boca enchia-se de açúcar por dentro e por fora. O guardanapo ao seu lado ajudava-o a limpá-la.
            Dirigiu-se para a sua mota pintada a carvão, estacionada junto de alguns figurantes.
            Seguiu para casa. Encontrava-se vidrado a um visor. Desse visor, luzes e cores juntavam-se transformando-se em imagens. Estas imagens, não eram imagens tristes nem de qualquer outro género relacionado, eram felizes. O que ele encontrava num bolo, também conseguia encontrar num computador. Não que ele andasse a morder os circuitos eléctricos, mas sim porque absorvia todo aquele alimento com a mente.
            Recebeu, entretanto, um e-mail.

            “Não entendes pois não? Por mais que te esforces nunca o irás conseguir. Tal como as sombras não aguentam com a luz solar. Age como elas. Esconde-te nos cantos mais sombrios da Terra e foge da luz do sol, porque ela não te quer.”

            O rapaz tremeu de choque. Os seus olhos petrificaram tal como a sua alma. Uma lágrima deslizou sobre o seu rosto.
            Decidiu, depois de reler mais algumas vezes, enviar uma resposta.

            “O facto de as sombras percorrerem a Terra à procura dos cantos mais frescos e sombrios, é pelo o facto de quererem derrotar a luz. Elas anseiam dominar quem as dominou. Que direitos tem a luz sobre as trevas?”

            O ecrã deixara agora de respirar, tal como a luz que sustentava o quarto.  
            “De uma derrota para uma vitória.”

9º Capítulo: Quinta ordem
           
            Houve tempos em que pensava que até em Terra estava seguro. Pensava que todas as peças me podiam proteger e que tinham essa obrigação, mas nem todas o têm.

            Mesmo antes do jogo começar, existem peças que sabem que devem proteger o Rei a todo custo.          
            Essas peças são as Torres. As Torres são peças colocadas nos cantos do tabuleiro. Peças que tem um poder abominável. Na altura em que é necessária uma peça poderosa para nos defender e colocar outra em “ mate”, lá esta ela. Anda as casas que quiser para onde quiser mas não em diagonal.

            Os planos devem ser concebidos antes da guerra. Um plano especial é o roque. Para além de me defender, dá liberdade à torre.

            Quinta regra: Seguir um plano sempre, pois ela é uma previsão.
           
            O meu plano é ganhar e eu sei que isso irá acontecer. É uma previsão. Os planos por vezes mudam mas sempre com o mesmo objectivo. Capturar a Rainha.

           
10º Capítulo: De um sacrifício a um sonho

            Os ponteiros do relógio da cozinha deixavam-se empurrar pelas forças do tempo. Cheirava-lhe a uma refeição leve mas deliciosa. Era nestes pontos do dia em que os olhos concordavam com o nariz. A sopa era verde e com alguns legumes que nadavam sobre ela. Ele não parava de pensar em como aqueles pedaços de verdura podiam ali estar prontos a ser devorados.

            “Então e se eles saltassem do prato cá para fora? Se voltassem a ser o que eram? Será uma sensação agradável pensar que tudo está a acabar? Então iriam a uma outra vida, completamente diferente da que tinham antes para prevenir que este actual lhes volte a acontecer.”

            Triste e com a cabeça baixa, dirigia-se para a casa de banho. Olhou-se ao espelho vendo o seu reflexo físico. A sua estrutura não era elegante mas tinha o seu próprio estilo.

            “Ele imita-me. Tudo o que faço ele faz. Qualquer movimento, por mais improvisado que seja, ele consegue reagir sem eu poder reparar em qualquer defeito seu. Serei eu capaz de enganar o meu reflexo?”

            Atordoado com a pergunta que fizera a si mesmo, fugira da casa de banho e fora para as escadas do prédio. Sobre ele encontrava-se uma cúpula de vidro pela qual podia olhar para as estrelas.
            “Se aquela estrela ali não estivesse, este céu aqui também não estaria.”

            Foi então que entendeu que algo teria de estar fora do seu plano para que o seu objectivo fosse realizado. O Bispo era a solução.

            Agarrou no objecto electrónico e escreveu uma mensagem a cortar alianças. Era uma jogada dura e deste modo sacrificava a peça para seu beneficio também.

            “De qualquer dos modos, eu irei ganhar. Contigo, sem ti ou mesmo contigo implicitamente.”

            O mundo dele era escuro, quase tão escuro como uma noite numa tempestade. Haveria por vezes pirilampos a sobrevoarem as cidades com a sua luz triste e singular. As pessoas que por ali viveriam seriam também tristes e olhariam para eles da mesma forma como olhariam para uma simples caneta. Não só não dariam a importância aos mínimos sinais de existência de vida como também não reparariam que eles não vivem.

            O rapaz, mesmo antes de se deitar na sua cama, que estava coberta por um cobertor azul escuro, escreveu num papel com um lápis mal afiado, as seguintes palavras:

            “ Por entre as fendas da tua casa te miro sem que te apercebas. Espio-te com toda a minha curiosidade. Os meus olhos despem o teu corpo sensual. Imagino-me abraçado a ti com os meus lábios abraçados aos teus. Deixo-me cair sobre as tuas penas celestiais. Já te sei de cor.”

            “Um caminho traçado sobre um mapa imprevisível.”

11º Capítulo: Sexta ordem

            Os peões são peças comuns com fracos direitos. A sua única vontade é continuar em frente e matar-se pela esperança de serem Rainhas.

            Os peões andam só em frente como se fossem cegos, e quando sentem um inimigo na sua diagonal mesmo na sua frente, saltam-lhe em cima.

            A sua utilidade para defesa do Rei não é muita, dado o facto que têm de ser movimentadas sempre e são de pouca confiança. Para chegar a Rainha, basta-lhes irem sempre em frente e chegarem ao limite do território inimigo, ganhando assim a confiança do Rei.

            Sexta regra: Incentivar a esperança para que não se apague rápido.
           

12º Capítulo: Mentiras e consequências

            O campo de visão do rapaz era nada mais nada menos que nevoeiro, provocado pela a água que escorria pelo seu corpo nu. As gotas de água minúsculas formavam gotas maiores, e essas gotas maiores ainda outras gotas ainda maiores, e assim consecutivamente, até formarem uma corrente de água, à qual ele podia admirar à vista desarmada. Saiu do chuveiro e envolveu-se numa toalha azul.

Retirou todas as gotas de água e deixou-as presas na toalha. Olhou-se ao espelho embaciado e comentou.


            Depois de perguntar-se a razão de tais crueldades, virou-se para o inferno. Acendeu uma chama para aquecer o leite frio, que fora retirado do frigorífico cinzento. Olhou para a chama que queimava o metal e o metal aquecia o leite. Era toda uma sequência. Foi nesse preciso momento que entendeu o que havia de fazer.
            Acendeu a luz do seu portátil e enviou um e-mail, que continha um certo código, e que fora dirigido para uma certa peça.
            Bebeu o leite. Ele sabia bem aquela sequência. O leite escorria pela caneca, da caneca à boca, da boca à faringe, da faringe ao esófago, do esófago ao estômago. Sabia ainda que, não era ali o fim daquela sequência.

            “ Uma vez feita uma acção, esta desencadeia milhentas outras que constroem uma enorme cadeia infinita delas.”, Pensou ele.

            Os seus pés moveram o seu corpo a uma mercearia para comprar alguns produtos que eram necessários em casa. Olhava para tudo o que podia ser olhado ou não. Deixou algum do seu dinheiro na loja e continuo o seu caminho até casa.
            Quando chegou à porta da sua casa reparou em algo. Reparou que tinha perdido as chaves e que assim não podia entrar em casa. Sem chaves não podia aceder aos seus privilégios em casa ou qualquer outro sítio, porque era em casa onde tinha tudo o que precisava para continuar a mover peças. Pensou no irónico que era, depois de tudo o que pensou naquele dia, fora vítima de uma sequência.

            “ Correu e correu para o outro lado, mas sem sucesso.”

13º Capítulo: Sétima ordem

            Existem no total sessenta e quatro deles. Trinta e dois arruinados e outros trinta e dois por preencher. Sem eles, o jogo não se desenvolveria. Nem sequer começaria. Não existiria sequer razão para pensar em tal coisa.

            São os quadrados que formam o tabuleiro de jogo. Estão por todo o lado e situados lado a lado.
            Também houve momentos em que desprezava totalmente a existência deles. Mas agora eu sei, eles existem para suportar um bem maior, o jogo. Servem para nos dirigir durante ele e saber onde colocar as peças. São, no fundo, as bases. O mais interessante é o facto de se poder fugir de todas as peças mas nunca dos quadrados.

            Sétima regra: Compreender o meio para poder ganhar.
           
            É verdade que eles não jogam. Mas eles têm influência no jogo. Se eu os compreender posso servir-me da sua ajuda para encurralar o meu oponente. Até os mais pequenos pormenores têm de ser escutados.

14º Capítulo: Aparências
           
            Rapidamente desviou o olhar dela com um simples aceno. Ela fitou-o rapidamente e voltou a olhar para onde estava a olhar inicialmente. Os olhos dela fitavam a estátua de pedra cuidadosamente, tentando entender porque estava ali parada sendo tão graciosa.

-        Obrigado pelo o desprezo que me deste ainda há pouco. – Disparou o rapaz sem a olhar nos olhos.
-        Eu não te desprezei, o meu olhar é que te desprezou em relação a esta estátua. – Disse-o fechando os olhos.
-        Estás então a dizer que sou inferior à estátua?
-        Em tamanho, sim és. Em esplendor, sim és. É por isso que a minha visão prefere olhar para ela do que para ti em certos momentos. Mas de certo que tudo o que é cego entenderá que tu és superior à estátua sem comparação.

            O rapaz entendeu aquelas palavras e mais nada disse.
            “ É como se existisse uma parede entre nós. Posso escutá-la, mas não a posso ver. O som não vem como devia vir. Quero a verdade. Porquê tanta defesa perante mim? Sou assim tão perigoso ao ponto de contar tudo por enigmas?”

            O encontro não tinha corrido como tinha planeado mas mesmo assim não foi tão diferente como esperava. Ele entendeu que ela gostava dele, mas não o demonstrava nem tinha intenções de o fazer já.
            “ Se isto continuar assim sairei vitorioso. Basta que ela ceda às minhas jogadas, que entenda que eu a mereço, e está tudo ganho para o meu lado.”

            Voltou para casa. A primeira coisa que fez foi visitar a sua caixa de correio, na internet. Reparou que aquela mensagem que tinha mandado para o outro canto do mundo tinha voltado para o seu e-mail.
            “ Como tinha pensado, não pôde sair do mundo.”

            Abriu o caderno para escrever. Era naquele caderno onde guardava poemas e histórias, quais nunca ninguém tinha passado a vista em cima.
            “ Há quem te adore e há quem só sinta ódio por ti, não é Tempo? Aqueles doces já tu os comes rápido, mas quando se trata de comida da pesada, comes aquilo como se tivesses o tempo todo do mundo, não é Tempo? Se passares a tua vista sobre estas palavras diz-me o que pensas.”

            Desenhou um rabisco qualquer no fundo da página e deitou-se sobre a cama.

            “ Ou estás branco ou estás preto ou não estás.”

15º Capítulo: Oitava ordem

            Cada um é o Rei de si mesmo. O Rei é o dono do jogo. Os objectivos do Rei são óbvios, dominar o jogo e ganhá-lo a todo o custo.
            O Rei é uma peça básica mas no entanto importante. Se acaba derrotado no jogo é chamado o xeque-mate. Isto acontece quando o Rei não tem mais para onde fugir a não ser para a boca da peça adversária.
            O Rei pode andar só um quadrado para todos os lados. Mesmo que tenha pouco movimento, tudo gira à volta dele.
           
            Oitava regra: O poder não me imortaliza.
           
            Mesmo sendo o Rei, não significa que não possa morrer ou sair ferido de uma batalha. Um Rei tem sempre um ponto fraco.

16º Capítulo:

            “ Foi tudo planeado até hoje. E vai ser hoje que vou acabar com este sofrimento e começar um novo rumo.

            Depois de ter capturado o Bispo para o meu lado, reparei que tinha sido uma armadilha. Aquele Bispo tinha causado mais problemas para o meu lado do que para o outro. Foi por essa razão que decidi cortar alianças com a peça, pela simples razão de está já não me ser útil.

            Depois de ter dado muitas provas à Rainha, nada resultou.
            O Rei da outra equipa, não é nada mais que uma peça com falta de amor. O problema é esse, capturá-lo desse modo é difícil.

            Mas afinal quem quero? O Rei ou a Rainha? Quero a Rainha, mas para lá chegar preciso de apanhar o Rei. Quando o Rei for apanhado, todas as peças do outro campo são minhas.

            Resumindo, hoje dou o meu golpe final. E foi por esta razão que acabei de escrever isto aqui, diário. Eu hoje, ou a conquisto, ou perco.”

            O rapaz tirou as mãos do caderno e olhou para ele com uma expressão séria. Retirou a caneta do sítio e arrumou o caderno num sítio secreto. Foi tomar um duche, vestiu-se e preparou-se para sair para o último encontro.

            Encontrava-se ele no local. Em frente à casa da Rainha, à espera que ela saísse. A casa dela por fora era vermelha. Tinha duas janelas e uma varanda no meio delas. Tinha dois andares e uma cave onde ele um dia tinha passado a noite com ela.
            A porta da casa abriu-se e fechou-se, ela já estava cá fora. Ele correu em direcção a ela e cumprimentou-a com um abraço.
-        Demoras-te um pouco, mas estás linda. Foi para mim? - Disse o rapaz a rir-se.
-        Mais ou menos, digamos que quando vou a um jantar tenho de ir gira. - Respondeu ela rindo-se um pouco.
            O céu estava a escurecer. Eram seis e meia, e os dois dirigiam-se para o mesmo sítio, para o tal jantar.
            Olharam para fora do restaurante onde podiam ler nitidamente o nome, “ O Caçador”.
-        O nome é um pouco estranho para uma marisqueira. Afinal, devia ser algo relacionado com o mar não? - Reparou ele, fazendo uma cara estranha.
-        Sim é verdade, mas quem sabe, talvez andem com armas dentro do mar. – Enquanto comentava, entrava pela a porta de madeira. - Mas talvez não sirvam animais normais, talvez sejam monstros marinhos!
-        Por exemplo um rato com barbatanas e com cinco olhos? Para não falar dos espinhos venenosos dentro do corpo dele. Espinhos esses que, se os engolirmos, poderá ser-nos fatal.
-        Não, isso é demasiado perigoso para os clientes! Vamos pedir uma mesa. –  Disse ela acenando a um empregado.

            O empregado apareceu. Enquanto ela pedia a mesa, o rapaz mirava o interior do restaurante. As luzes que ali incidiam, demonstravam o quão grande era aquela casa. Havia no total trinta e seis mesas, e quase todas para cinco pessoas. Havia ainda uma cave, mas só para adultos.

-        Que estás a fazer? – Disse ela, puxando o casaco azul do rapaz. – Senta-te e decide o que queres para comer.
-        Desculpa, estava apenas a admirar a casa.
-        Sim é muito artística, mas senta-te e admira depois de comer. – Comentou ela com o olhar fixo no livro. Abriu, folheou, fechou. Com o prato que queria em mente, acenou ao empregado.
-        Desculpe. Quero “coelho à caçador” e um sumo de laranja por favor.
-        E eu quero “bacalhau à Brás” e água natural, se faz favor.

            O rapaz manda um copo ao chão com o cotovelo sem tirar os olhos da rapariga.
-        Não sei se reparaste mas o meu coração fica assim, como este copo, desfeito.
-        Não entendo. – Olhou-o de boca aberta.
-        Por vezes é isto que me acontece quando me magoas com desprezo. - Disse-o lentamente e a olhar para os talheres.

            Houve um silêncio da parte de ambos. Os pratos já tinham chegado e o copo tinha sido varrido do chão. Após comerem e pagarem a refeição, dirigiram-se para a rua. A rua estava fria e silenciosa. Não havia um único carro a passar na estrada, um único cão a ladrar, uma única pessoa à vista e nem mesmo um único som alegre de uma guitarra.
            Refugiados da noite fria e escura, encontravam-se no quarto dele. Estavam os dois sentandos em cima da cama. Ouvia-se a respiração e o coração dos dois, mas um mais rápido que o outro.
-        Tenho algo a confessar-te. - Disse ele baixinho.
-        Conta, estou interessada.
-        Eu amo-te.
            Houve um breve intervalo de tempo em que os dois olharam um para o outro, até que o rapaz avançou. O corpo dele deslizou para a frente tentando atracar com os lábios no objectivo. A sensação quente do corpo dela era cada vez mais intenso e mais suave. Os lábios estavam perto um do outro.
            De repente o rapaz abre os olhos e vê-se empurrado para trás. Aquela sensação de esperança, tão quente, tinha-se desvanecido. Sentia-se frio, apetecia-lhe chorar. Ele acreditava que conseguia.
-        Desculpa, mas não podemos. Eu não gosto de ti como tu gostas de mim. Sei que isto é embaraçoso mas, só te vejo como um amigo e nada mais. Sei que tentas tudo por mim, no entanto tudo o que fazes parece não ter tanto significado para mim como tu querias. Lamento.
-        Eu perdi o jogo então.
-        Jogo? Qual jogo? – Perguntou ela triste.
-        Não é nada, deixa estar.

            Os adolescentes ficaram a conversar mais um pouco no quarto. As conversas eram um pouco mortas. No fim, quando ela saiu da casa dele, ele desatou a chorar em cima da cama. A almofada estava molhada e passaram duas horas de tanto choro, de tantas lágrimas sobre a almofada.
            Finalmente, levantou-se e decidiu escrever no caderno que ainda confiava de alma e coração.
            “ Perdi. Afinal, mesmo tendo tudo à minha mercê, há algo que me esqueci. Esqueci-me que o amor é mais forte que qualquer jogada. Por mais que tente, o amor é demasiado natural para ser criado. Talvez chore mais um pouco, talvez não. Talvez a neve cubra-me a face. Só sei que a montanha já se desfez com o terramoto. E agora, para por este caso encerrado, irei escrever algo importante, como resumo.

Irei rir-me tanto quando entender que tudo isto foi apenas uma brincadeira de crianças, até lá vou desejar-te como nunca desejei outra pessoa.”

            E riscou as duas primeiras letras da segunda e da terceira palavra.


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