Deus Todo o Poderoso diz:Boa noite manta azul. Estás neste momento colocada em cima de uma mesa estranhamente estranha, pergunto-me porquê ?
Manta Azul diz:Boa noite, oh tu que vens sem sequer te apresentares. Antes de responder ao que quer que seja, exigo que me digas quem és. Ja estou aqui há anos a mais para serem contados e já do tempo há muito que perdi a noçao. Quem me dirige a palavra ao fim deste tempo todo?
Deus Todo o Poderoso diz:Não o tens de saber de momento. Respondai à minha primeira pergunta e eu direi quem eu, todo o poderoso, sou.
Manta Azul diz:Um pouco mais de educação e menos misterio é tudo o que esta velha manta lhe pede. Mas já estou habituada a que me tratem assim. Eu nunca fui importante para ninguem. So se lembravam de mim no inverno. Mas mesmo isso, se foi depois daquele dia. E eu aqui em cima fiquei, sozinha, eternamente á espera do calor daquele humano.
Deus Todo o Poderoso diz:Velha? Aos meus olhos o seu corpo é fresco. Interessante, nunca foi importante para ninguém diz você. Ao meu tacto você é quente, porque precisa do calor humano? Mas como já respondeu à minha pergunta, eu respondo à sua. Eu sou Deus e hoje estou aqui para escrever para o meu blog. Encontrei a sua exelência a mesa e decidi que iria falar para mim.
Manta Azul diz:Talvez o tempo e o desuso me tenham congelado e protegido da degradaçao que os anos que foram passando deveriam ter deixado sobre mim. Posso nao ter perdido o dote de aquecer outros seres. Mas cá dentro, uma certa melodia, uma certa tristeza cresce. Antes, nesta casa, existia uma familia. As mantas como eu sentem o calor dos humanos. Havia um bebê e ele merecia o meu calor. Uma vez embrulhado em mim, estableci um contacto que talvez nem o Deus mais poderoso poderá perceber. Embora creie que a minha historia em nada favorecerá o seu blog, se quiser, eu conto-a.
Deus Todo o Poderoso diz:Teria o prazer de ouvir a sua história, porque tenho a certeza que encataria todos os outros que a lerem. Eu olho para as suas rugas pelo o corpo e acredito fortemente que a história é de fascinar. Aqueça-nos com as suas palavras, manta azul.
Manta Azul diz:Agradeço-lhe por de certa forma me ter acordado. Durante estes anos todos, sentia-me algo vazia. A minha historia, talvez para outros seres nao faça sentido. Talvez nao compreendam porque nao sao mantas. Se me permitir, irei recuar no tempo. Vou falar-lhe de quando as pessoas eram felizes. As pessoas eram felizes nesta casa quando a maldade cá nao conhecia lugar. Eu, sei que fui fabricada por um senhor de renome. Cheguei a esta casa e reparei no quao bela, alegre, aberta ela era. Mal eu sabia que o dinheiro faz os humanos esquecerem as coisas mais simples. Depressa fui arrumada. Compraram-me so mesmo por dizer que me tinham comprado. O tempo foi passando e eu permaneci fechada naquela gaveta, junto com algumas das minha especie. Passado uns tempos, a gaveta foi aberta. Algumas das nossas foram retiradas e nunca mais voltaram. Não percebia porque até ao dia em que me retiraram. Saí da gaveta e mal reconhecia a casa que outrora fora tao aberta, tao alegre. Do elegante papel de parede, já so restavam pequenas amostras. Os moveis outrora vastos e espalhados pela casa, era agora
poquissimos, quase mesmo nenhuns. Reparei num monte de mantas com varios preços colados. Depressa percebi. A familia tinha caido na desgraça. Tambem eu teria ido para aquele monte se o bebe nao tivesse agarrado uma das minhas pontas e sorrido para mim.
Sua mae, a unica mulher que alguma vez eu tinha visto, fez um leve sorriso tambem. Mas algo triste. Murmorou apenas "esta não". E deu-me ao pequeno. Durante uns tempos senti-me feliz, importante, senti que aquele bebe me merecia e sentia-me amada. Mas tambem senti que algo nao estava bem. Por mais que tentasse aquecer o pequeno, o seu fragil corpo nao me aguentava. O menino começou a ficar cada vez mais fraco. E eu nada podia fazer. Um dia, a senhora veio a correr. Retirou-me do colo do seu filho e colocou-me nesta mesa. Por ser estranha e ter esta cor, nao tinham arranjado comprador para ela. Aqui em cima fiquei enquanto observava um doutor a entrar pelo quarto adentro.
O menino foi levado e nunca mais voltou. A senhora foi com ele e nunca mais voltou. O senhor que tao poucas vezes eu tinha visto, foi embora e nunca mais voltou. A ultima recordaçao que tenho, foi da irma do pequeno. Sozinha, entrou no quarto a chorar baixinho. Quando percebi que ele tinha morrido, os meus sentimentos desapareceram. Fiquei fria e vazia. A minha ligaçao a ele tinha sido quebrada.
Estranho. Que desta casa seja eu a unica a puder falar. Tirando as mantas que há anos conheci, nunca diologuei com ser algum.
Agora que me dou conta. O senhor está a ler os meus pensamentos, correcto?
Deus Todo o Poderoso diz:Não, não uso os meus poderes para ler os pensamentos de objectos tão fracos de espiríto. Mas se perguntar se estou a ouvi-la, sim, eu estou com toda a atenção do universo. As suas palavras foram tristes, quentes mas geladas, almadiçoadas. Entendo toda a sua tristeza. Sabe ao menos o nome do bébé?
Manta Azul diz: Daniel. Eu ouvia. Daniel. "o meu pequeno pássaro", a senhora dizia. Mas então como faz para me ouvir? Não entendo porque não consigo comunicar com outros objectos ou pessooas. Não entendo também para que serve o amor. Ele é sempre destruido por algo. Não me sinto capaz de voltar a establecer ligaçao. Estou presa á minha historia, é natural que ela seja amaldiçoada. Não me liberta, nem eu me quero libertar. Estas memorias sao tudo o que tenho.
Deus Todo o Poderoso diz:Entendo. O amor foi uma criação monstrousa dos Humanos. Seres masoquistas que dão nome a tudo e acreditam na mais pura idiotice, mesmo que ela só tenha uma explicação e eles dão duas. Vejo que o seu olhar é triste e o tempo chama-me. Uma última pergunta, e garanto-lhe que a levarei comigo até Daniel se responder. Gosta de cachorros quentes?
Manta Azul diz:Mas talvez isso os faça mais felizes. Ja pensou? Qual o preço da felicidade... Será que ser-se idiota é assim tao mau quando se é feliz? Daniel... Onde andará o pequeno dos sorrisos. Cachorros quentes? Como se aquece um cão? com uma manta? e porque haveria eu de gostar disso?
Deus Todo o Poderoso diz:Isso são perguntas que talvez um dia eu lhe possa responder, mas, quem faz as perguntas aqui sou eu. E bem, como o tempo acabou, eu levo-lhe a Daniel. E vou-lhe responder à pergunta " Você não manda no tempo ? ". Não, o tempo é meu inimigo e nada o pára.
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